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Come Into My Heart

Come Into My Heart

Mãe

21.02.20 | *

Serei a única Mãe que acha que, por mais tempo que passe neste nosso papel, serei sempre novata nisto?

Desde que me tornei Mãe, tenho vindo a recordar todas as histórias que a minhã Mãe me contava. E agora vejo-a, também, como Filha que ela é.

É incrível como a nossa percepção do mundo que nos rodeia muda, de acordo com as nossas vivências. Enquanto cresci, olhei sempre para a minha Mãe como uma fortaleza inabalável. Capaz de enfrentar todo e qualquer desafio, com uma confiança que eu julgava única. Mal sabia eu que esta visão que eu tinha dela, lhe ia colocando a fasquia mais e mais elevada, dia após dia. 

Nunca lhe conheci um momento de desistência, aprendi nela a força de acreditar que a vida se resolve. Encontrava nela todos os placebos para os meus medos e inseguranças, que na realidade nada mais eram que um pedaço de papel ou um fio em ouro que levava comigo, qual amuleto. E o medo desaparecia. A segurança reinava. Porque levava a minha mãe comigo. 

Não há muitos dias atrás, a minha filha (que tem 3 anos) disse-me que por vezes tem saudades minhas e que gostava de ter algo para se lembrar de mim, sempre que tivesse saudades. Consegui imaginar-me, pequenina, a dizer aquilo à minha mãe. Imaginei-me, mesmo sabendo que nunca lho disse. 

A troca de papéis, aos 33 anos, assoberbou-me. 

De repente, ao fim de 3 anos neste papel que ocupo, uma epifania. A minha mãe, aquela fortaleza à qual recorro sempre (nem que seja em pensamento), nunca deixou de ser uma filha. Construiu aquela fortaleza com pedras e pedrinhas ao longo de todo um caminho que nunca foi fácil. Aquelas pedras e pedrinhas, nada mais eram que as suas inseguranças e medos. Fortificou-se para que - no papel de Mãe - aquela Filha não parecesse tão novata. 

Enquanto filhos, esquecemo-nos de entender a fragilidade dos nossos pais. Enquanto nossos pais, enquanto filhos que sempre serão. E quando perdem os seus pais, aquelas fortalezas têm de se manter erguidas para nós. Por nós.

Recuo 17 anos e vejo o ponto de viragem da minha Mãe, quando a sua Mãe (também um bocadinho minha) lhe faltou. 

Verbalizar que passaram 17 anos é como dizer uma mentira a mim mesma: como se tivesse sido hoje, como se a incredulidade ainda morasse no meu peito e a qualquer momento pudesse acordar.

Este ano é o ano do empate. São 17 anos sem a Mãe da minha Mãe, tantos quantos vivi com a sua presença à distância de um abraço, do som de uma gargalhada ou uma das chamadas diárias a saber se estava tudo bem. Só posso imaginar, bem de longe, a incredulidade que estou certa que mora no coração da minha Mãe. 

Quando a minha filha troca os "ontem" por "amanhã" e me diz que quando eu era pequenina tomava conta de mim, imagino que é isso mesmo que eu gostava de fazer à minha Mãe: dar-lhe o colo que sei que lhe falta. 

Agora sou Mãe e vejo a minha Mãe com outros olhos. Quando relembro, de forma cada vez mais vívida, as histórias da escola, das papoilas e do côco ralado... vejo-a como uma filha. Como a minha filha. E quero dar-lhe colo. Porque o Amor é isto e a vida tem uma forma peculiar de nos relembrar que no nosso coração há sempre espaço para o Amor, saibamos ou não demonstrá-lo. 

Ás Marias da minha vida: as que eu posso cuidar e a que cuida de nós, de blusa florida e saia travada, com um cabelo branco imaculado preso num novelo de amor.

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